domingo, 16 de março de 2008
Créu na praça
— Ouve só essa: a Holanda vai liberar sexo nas praças públicas.
— Como é que é? Sexo mesmo, transar pra valer?
— É o que tá escrito aqui no jornal.
— Quer dizer que o cara escolhe uma mulher numa daquelas vitrines e vai experimentar na praça. Se não gostar volta pra trocar por outra.
— É isso aí. Ou ele pode pegar uma mulher num barzinho, pedir um baseado pra viagem e ir desfrutar a erva e a mulher num parque das redondezas. Tudo dentro da lei.
— Isso é que é país avançado, não é aquela caretice dos Estados Unidos que derrubou o governador de Nova York só porque saiu com uma garota de programa. E olha que ele nem pagou com cartão corporativo.
— Mas eles vão se danar porque o vice que assumiu é cego. Não vai ver nada, igual ao nosso presidente.
— A Holanda sempre esteve na vanguarda. A nossa ministra de Sexo e Turismo devia dar um giro por lá e tirar umas idéias em vez de ficar mandando a gente relaxar e gozar.
— Essa de transar em praça pública é uma boa, ao ar livre, com flores e passarinhos cantando em volta. Dá pra fazer sexo e ainda pegar um bronze. É muito mais saudável do que em motéis.
— No inverno é que vai ser dureza. Lá faz um frio terrível.
— Eles dão um jeito e botam aqueles casacões de pele. Vão parecer dois ursos se acasalando na neve.
— Será que qualquer um pode fazer sexo nas praças, ou vai ter que ter licença?
— Talvez tenha que tirar uma carteirinha. O problema vai ser onde pendurar a carteirinha quando o casal estiver em atividade.
— E pode ser em qualquer lugar da praça?
— Aqui diz que tem ser longe das crianças. O playground tem que ficar de um lado e o fuckground do outro, cada qual com seu trepa-trepa.
— O que mais diz a notícia?
— Diz também que os policiais não podem interferir, a menos que o casal esteja perturbando a ordem pública.
— O que será perturbar a ordem pública numa trepada?
— Sei lá. Vai ver que só pode fazer papai-e-mamãe e não vale gemer alto.
— Deve ser por aí. Será que pode sexo grupal?
— Uma suruba ao ar livre, você quer dizer.
— Isso mesmo. Uma festinha de final de ano, de aniversário, de formatura.
— Por que não? Desde que não perturbem a tal ordem pública e no final deixem tudo limpo. Não pode é se lavar no laguinho da praça e deixar preservativos espalhados pelo chão.
— E o sexo vai ser liberado em qualquer praça?
— Acho que sim. Eles só vão ter que alterar as placas dos gramados. Vão ter que colocar – É proibido pisar e trepar na grama.
domingo, 9 de março de 2008
O SUSTO QUE DEUS ME DEU
- Sergio ! Sergioooooooo!
- Meu DEUS ! !,... É Ele.
- Aqui estou Senhor !....................... [ que medo!!!!!!! ]
- Quero conversar com você e ouvir a sua opinião
-Quem sou eu Senhor !! , mas que seja feita a sua vontade...
- Sergio, pretendo fazer algumas modificações na geração do ser humano
- Como assim Senhor???
- Como você sabe, o Verbo se fez Homem e habitou entre vocês...e isto, conforme o Gênesis, desde o Princípio. São milhões e milhões de anos e o ser humano continua a ser feito da mesma maneira, segundo o mesmo programa genético e, principalmente durante o mesmo tempo, ou seja 9 meses. O que você acha?
- Meu Deus, eu o amo muito, mas.... quem sou eu para responder de repente, uma pergunta dessas ?
- Não se preocupe, você não está representando ninguém a não ser você mesmo ! É só a sua opinião!
- Bem, Senhor, como dito, seja feita a Vossa vontade, mas antes, me explique um pouco mais sobre essa Divina Pretensão, se possível...
- É que, diante da evolução que vocês humanos alcançaram, Quero saber se seria ou não o caso de introduzir-se alterações, modificações, ajustes, enfim, mudanças que viessem a , eventualmente, buscar uma compatibilização com isso que vocês chamam de Era Pós-Moderna ou Contemporânea ou coisa semelhante, na forma de viver.
- Senhor, não estou muito confortável nessa....como se diz popularmente....parada , mas jamais me passaria pela cabeça negar obediência, principalmente por medo, deixando de relevar o que mais me honra nesse momento, qual seja a Sua confiança na minha capacidade e dignidade, aliás como faz com qualquer dos meus irmãos e irmãs, pois não sou exceção de coisa nenhuma.
-Assim sendo, peço que seja compreensivo e me perdoe caso ultrapasse meus limites que Vós mesmo mo deste:
-Vim a este mundo num tempo muito diferente dos dias de hoje.
-Tive o privilégio de assistir a uma formidável evolução da tecnologia, pois fui um daqueles que escutou rádio em caixa de madeira com aquele panozinho na frente do autofalante e falhando mais do que falando.
-Hoje estou diante de um computador que, praticamente faz o que eu comandar, seja um texto, um cálculo, uma imagem, uma comunicação e assim por diante. Meu poder cresceu geometricamente, e, a bem da verdade, não tenho muita noção do que isso significa.
-No Japão, sei que já existe máquina que fala e que presta pequenos serviços sob comando direto de alguém.
-Tudo isso aconteceu num prazo extremamente exíguo, e a rigor, se elegermos uma escala mais ampla, digamos, o milênio, tudo isso aconteceu como se um relâmpago atravessasse o céu e nada mais.
-Temo, assim, pela dimensão humana quanto `a absorção de tudo isso. Considero o impacto extremamente forte para que a nossa capacidade do adequado entendimento da direção para onde estamos nos dirigindo. No fundo, acho que não sei para onde..
-De uma coisa no entanto tenho uma percepção, de certa forma razoavelmente clara :
-Se é para ser feliz, alegre, descontraído, lúdico como quero crer que tenha sido a atmosfera com a qual criaste o mundo, melhor dizendo o Cosmo, me parece que a direção não é essa não.
-A ansiedade e a busca da realização de um patrimônio que com absoluta certeza ficará aqui mesmo, e eventualmente até para quem pouco ou nada fez para merecê-lo, impedem sem nenhum esforço, qualquer movimento dirigido no rumo e no sentido do encontro da felicidade e realização duradouras, ou seja, bases que passarão a integrar o nosso ser e conosco seguirão para o futuro seja ele qual for, onde for ou como for.
-Dito assim, parece que não estou respondendo à sua indagação, porém meu bondoso Deus, estou sim, opinando de forma indireta, oculta, como bem a Vosso gosto e maneira:
-O avanço da tecnologia não arrastou consigo um avanço do ser em si.
-Trouxe uma enorme ansiedade, resultado da atmosfera de pressa que tomou conta da humanidade.
-Nada nem ninguém tem mais tempo . O que existe hoje é o culto à velocidade e o expurgo do obsoletismo.
-Produtos hoje, mal saíram das pranchetas e são atingidos brutalmente pela borduna da pesquisa, que chega gritando:
- Vai para o lixo porque já tem coisa nova e que funciona melhor que você.
-Assim, Senhor, creio que não seja o caso de modificar nada na geração do ser humano.
-O que precisamos , a meu ver, é aprender a viver com mais inteligência:
-Elegendo outros e novos valores ;
-Cooperando, ao invés de competir
-Ou seja: amando mais o ser do que o ter
-Portanto, deixa os nove meses mesmo e se achar que cabe, cria uma luzinha no coração de cada um e se acomode lá :
-Vai ser legal perceber o (a)feto iluminado.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Apagão Literário?
Sucumbiram ao carnaval?
Estão preocupados em entender os gastos com os cartões corporativos?
Trata-se de um apagão literário?
Começamos o mês de fevereiro bem, com 7 postagens até o dia 7, média de uma por dia, e depois travou geral. A última postagem foi o primeiro e único episódio da série “Maria Mariola” por sinal muito bom, deixando a todos dúvidas quanto ao paradeiro da personagem e o conteúdo do embrulho.
Será que estamos todos guardando forças e idéias para a oficina 5?
Vamos lá pessoal, mãos a obra, nas postagens e nos comentários.
Assunto não falta! olhem só...
Corporativismo ( segundo o Dicionário Aurélio ) - Sistema em que as classes produtoras se reunem em corporações, sob fiscalização do Estado.
E as duas "pérolas" do nosso presidente esta semana?
O Cartão Corporativo foi uma idéia fantástica do governo anterior!
Na Antártida : Isto aqui é uma grande geladeira!
Paulo Borchert
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Maria Mariola
Ela vivia perambulando pelas ruas do bairro. Diariamente, de segunda a domingo. Negra, suja e maltrapilha. Os cabelos ensebados denunciavam que não viam água há séculos. Entretanto, quem a olhasse com mais atenção perceberia que escondida embaixo daquela sujeira humana havia uma mulher de traços marcantes, lábios grossos e nariz afilado. Quase se poderia afirmar que, se a submetessem a uma faxina geral com muita água e sabão e a um “banho de loja” surgiria, como que por encanto, uma negra bonita, talvez interessante, talvez até charmosa.
Sempre com calçados velhos e tortos, carregava invariavelmente um pacote sob o braço. Envolto em inúmeras folhas de jornais amassados, ela o ajeitava nervosamente o tempo todo. Transportava aquele embrulho com preocupação e com tamanho cuidado que dava a impressão que guardava algo de valor inestimável, o qual protegia e defendia com unhas e dentes. Não se afastava do pacote em hipótese nenhuma. Nem quando parava para se alimentar. Nunca ninguém conseguiu saber o que havia dentro daquele monte de jornais desarrumados. Na outra mão, conduzia um saco preto, imundo, de lona ou algo parecido. Nesse saco ela enfiava coisas que catava nas latas de lixo. Era inútil tentar saber o que lhe interessava. Pegava garrafas, mas não todas; recolhia latas, mas não qualquer uma; vidros, só alguns. Jornais e certos objetos inservíveis também eram colecionados. Cada peça recolhida era analisada demoradamente antes de ser selecionada e ir para o saco.
Sua via sacra diária se resumia em recolher coisas do lixo e tomar conta do embrulho. Bastante conhecida no pedaço, alimentava-se com facilidade através de doações dos moradores. Não ameaçava ninguém sob nenhum aspecto. O semblante era sempre triste. Pouco falava e nunca sorria. Vagava sossegada pelas ruas durante todo o dia, futucando cuidadosamente as caçambas, sem derramar ou espalhar lixo pelo chão. Nada ou quase nada se sabia a seu respeito: sua idade (aparentava uns quarenta e cinco), o verdadeiro nome, onde morava, se tinha família ou o que fazia com tudo aquilo que recolhia. Muito menos satisfazia a maior curiosidade de todos, em especial da molecada: o conteúdo do misterioso pacote.
Todos a chamavam de Maria Mariola. Ela, por sua vez, era indiferente ao apelido. Jamais demonstrou gostar ou não gostar do nome. A hora em que lhe ofereciam comida representava o melhor momento para se tentar saber algo a seu respeito. As donas de casa metralhavam-na de perguntas nessas horas. Ela, sem perder a calma, respondia o que queria. Geralmente preferia balançar a cabeça positiva ou negativamente. Falar mesmo, um ou outro monossílabo. O mais comum, entretanto, era manter-se calada diante das perguntas curiosas, alheia a tudo e a todos. Ou então, dar respostas que nada tinham a ver com o que lhe perguntavam.
Nem nos momentos em que a garotada resolvia perturbá-la perdia a calma. Apressava os passos e saía da área de atrito com rapidez e sem nenhuma reação.
Certa vez, um grupo de moleques decidiu segui-la num final de tarde com a intenção de descobrir seu domicílio e, com um pouco de sorte, o mistério do embrulho. O caminho que ela percorreu foi tão longo e tão demorado que os perseguidores, cansados, desistiram e retornaram vencidos sem cumprir a missão. Um deles, o mais espevitado de todos, jurava ter visto, dentro do tal embrulho, um porta-retratos com a foto de uma criança que era a “cara de Maria”.
Um dia, Maria Mariola não apareceu. Nem no outro e nem no seguinte. E nunca mais. Ninguém nunca soube que fim levou aquela Maria triste, silenciosa, solitária, maluca mansa. Teria morrido ? Se alguém no mundo, em especial, sentiu sua falta ninguém nunca poderá dizer. Mas a verdade é que todos que a conheceram e a encontravam todos os dias, durante tantos anos, sentiram sua ausência. Maria se foi. Simplesmente sumiu.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Empório de Sentimentos
[Uma mulher passa apressada no centro da cidade,quando de repente é atraída pelos gritos de um vendedor em frente a uma loja]:
- Olha aí pessoal!!!!!!!. Quem precisa trocar,vender ou comprar sentimentos!!!- gritava um rapaz na frente da loja, e foi tomada de uma surpresa indescritível.
- O que é isso? !!!!!!- disse ela para si, e...não agüentou, chegou junto do rapaz e perguntou .
Ele foi logo dizendo: - É só entrar!.
[Ela, meio ressabiada, é verdade, foi entrando e logo veio um vendedor de aparência tranqüila e olhar sereno.]
- Em que posso servi-la? - indagou;
- Não... eu estou de passagem, e com certa pressa, e só queria saber como é que esse negócio funciona, enfim, que negócio é esse?...
- Ah!!!, já sei, disse o vendedor, a senhora nunca viu esse tipo de negócio não é?
-É isso mesmo, por favor, eu só quero ter uma idéia “por alto”, vamos assim dizer..
-Bem, disse o vendedor, como a senhora está vendo, a loja está cheia de estantes com prateleiras , e o conjunto está dividido em colunas, onde cada coluna tem um título. Nesse lado temos, amor, ternura, carinho, fraternidade, compreensão, tolerância, solidariedade, renúncia, alegria, e esperança ; mais para lá, acho que ainda dá para ver, temos sacrifício, boa vontade, e mais para frente, deste outro lado, temos ódio, rancor , vingança, inveja, desdém, intolerância, agressividade, má-fé , esperteza...
[A senhora interrompe ]
- Mas esperteza não é sentimento meu senhor, é atitude.
No que o vendedor retruca :
- Por trás da atitude está outro produto nosso, a ganância, ou aquele outro já dito, a má-fé -e continua - Como a senhora vê, aqui comercializamos sentimentos e o negócio funciona assim: Digamos que uma pessoa tenha uma determinada carência. Digamos também que ela vá se deparar com alguma situação que requeira o emprego do sentimento que ela carece. Isso vai fazer com ela vá ao encontro de uma situação que poderá ser muito desconfortável ou até mesmo bem prejudicial, ou quem sabe, irremediável. Nesse caso, essa pessoa vem aqui e procura transacionar a carência em causa, ou seja, aquela da qual depende para enfrentar a situação.
- O senhor agora empregou um verbo que não havia mencionado. O senhor havia dito comercializar, e não falou em transacionar...
- É que aqui, como dito, trocamos, vendemos ou compramos sentimentos, o que, efetivamente, são transações, porém o que posso aduzir agora, já que a senhora quer mais detalhes, é que também alugamos, arrendamos, consignamos, e dependendo de cada caso, credenciamos a pessoa para transacionar com nossos produtos mediante Representação.
- Ah!! Que fantástico!! - disse a mulher admirada - Um momento, por favor, que eu vou desmarcar um compromisso para dispor de mais tempo para que o senhor me explique mais um pouquinho sobre esse negócio;
- Pois não senhora, esteja à vontade, disse o vendedor,constatando que tal tipo de comércio era realmente muito novo na praça;
-Senhor, diz a mulher, gostaria de saber a questão dos preços. Como é que é?...
- Bem, essa questão varia bastante. Como são várias as modalidades de comercialização ou transação, vários também são os preços. Vejamos então uns poucos exemplos, ah!, a senhora me desculpe, mas já estão esperando por mim ali do lado.
- Vamos fazer o seguinte nesse caso, disse a mulher : O senhor atende à pessoa e eu me aproximo para assistir à transação !;
- Está bem senhora, então aproxime -se quando eu me dirigir ao freguês.
O vendedor vai até ao freguês e se coloca à disposição]
- Bom dia!, tenho daqui a uma hora uma reunião muito importante onde vou decidir o destino de um imóvel e preciso de raiva e agressividade para enfrentar o empresário que quer comprá-lo a preço de banana para incorporar um edifício no local.
- Pois não senhor , que espécie de transação prefere: comprar ou alugar?
-Alugar, diz o interessado, pois tais sentimentos não me interessam,
- Bem , senhor, a raiva está a R$ 5,00 /hora e a agressividade, R$ 2,00
[O freguês aceita o preço e o vendedor apanha dois frascos na prateleira,entrega ao freguês, que se dirige ao caixa da loja e paga. Após, vai para uma cabine onde a mulher percebe que o mesmo inalou o produto e sai dali bufando pelas ventas]
-Nossa Senhora!!,- diz a mulher atônita, nunca vi isso na minha vida! - Por que é tão barato?
- Porque esses produtos praticamente são oferecidos por centenas ou mesmo um milhar de pessoas diariamente aqui na loja. Na verdade, quase todo mundo tem e só um ou outro não os dispõe em quantidade suficiente...
-E quanto custa o amor meu senhor? - Indaga a mulher com visível ansiedade;
- Ah! Senhora, se for para alugar, no momento está custando R$ 300.000,00/hora pois sua cotação varia muito durante o correr do dia, aumentando bastante no que vai entardecendo mas se for para comprar, aí a senhora me desculpe, mas o amor nós não vendemos, só alugamos.
É muito difícil vir alguém aqui vender esse produto.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
A paquera
Ao entrar no bar do hotel em São Paulo, Julio não imaginava que estaria entrando também numa nova vida. Era o melhor momento do dia para ele, a hora do encontro com o velho amigo Johnnie Walker. Enquanto o barman o servia, deu uma olhada no local. Notou uma mulher, jovem, bonita e bem vestida, sentada sozinha numa mesa. Sorriu para ela e a cumprimentou com o copo de whisky. A mulher retribuiu o cumprimento com um sorriso e com o copo do colorido e enfeitado coquetel de frutas que bebia.
- Eu sou Julio, carioca, e detesto beber sozinho. Posso me sentar aí com você?
- Fique à vontade - ela respondeu mantendo o sorriso - Eu sou Renata, paulista, e estou esperando uma amiga para jantar.
Após a breve apresentação eles engrenaram uma animada conversa enquanto bebiam. Pouco depois Renata recebeu uma ligação no celular; ouviu mais do que falou e ao desligar comentou:
- Levei um bolo, a minha amiga não vem mais.
- Hoje pode ser o meu dia de sorte. Eu ia jantar sozinho, o que é pior do que beber sozinho. Já que somos dois abandonados, que tal jantarmos juntos? - disse Julio aproveitando a oportunidade inesperada.
Ela aceitou e eles saíram para jantar num restaurante italiano. Um jantar a luz de velas, pratos sofisticados regados com um tinto importado e um piano suave ao fundo. Enfeitiçado pelo ambiente, pela beleza e jovialidade de Renata, Julio sonhava acordado enquanto conversavam. Queria tocá-la, abraçar aquele corpo jovem, acariciar seus cabelos, sentir o perfume daquela pele lisa e macia, beijar os lábios sensuais. Renata parece que leu o pensamento dele e o ajudou.
- Julio, eu tenho uma coisa para te contar. Eu sou uma garota de programa. Se você quiser continuar a conversa depois daqui, eu estou à sua disposição.
Uma ducha de água fria caiu bruscamente sobre o ego machista de Julio. O encanto da paquera se desfez como uma bolha de sabão que estoura e some no ar. De um momento para o outro os papéis se inverteram, Renata deixou de ser caça para ser caçadora.
- Quem te ligou lá no bar foi mesmo a tua amiga? - Julio perguntou recolhendo o sorriso.
- Não - Renata respondeu colocando a mão em cima da dele - Foi o barman, mas você não vai ficar chateado comigo por causa disso, vai? Eu só saio com pessoas que me atraem e você é uma delas. Você não está interessado em ficar comigo?
Continuou com a mão sobre a dele, sabia que o contato físico era importante naquele momento, nem que fosse um simples carinho na mão. O peixe estava mordendo a isca e precisava de um incentivo.
- Você ainda não me disse o seu preço - Julio comentou sério, deixando a mão dela onde estava.
- Essa é a parte chata do meu trabalho e eu deixo por sua conta. Amanhã você me dá o que achar que eu mereço - Renata passou a acariciar a mão dele.
Julio não resistiu por muito tempo e engoliu a isca. Estava fisgado. Após o jantar voltaram para o hotel e Renata mostrou do que era capaz.
Aos 40 anos Julio estava preso a um casamento fracassado, já não se entendia com a mulher há algum tempo e mal se falavam. Ela não pôde ter filhos, o que foi uma frustração para o casal e contribuiu para deteriorar o relacionamento. Na vida profissional também estava insatisfeito, era uma vítima do golpe do baú. Trabalhava e ocupava um bom cargo na empresa do sogro, morava no apartamento dele e até o carro que usava era da firma.
Acomodado no casamento e no emprego, e sem motivação para jogar tudo para o alto, a vida dele mudou depois de conhecer Renata. Ficara escravo da beleza e da juventude dela, quase vinte anos mais nova do que ele. Era um homem feliz quando a encontrava em São Paulo, mas vivia em conflito. Se por um lado estava apaixonado, por outro a rejeitava por ela ser uma garota de programa.
A paixão era correspondida. Renata parou de aceitar “doações” pelos serviços e esperava ansiosa pela visita semanal. Julio era o homem maduro, bem sucedido na vida e carente de afeto com quem sempre sonhara. Passaram a sair juntos na noite paulistana. Debaixo dos lençóis trocavam carícias e confidências, a cama se transformou no divã do analista. Julio foi o primeiro a desabafar e depois foi a vez Renata contar sua história, uma história triste como a de qualquer puta. Eram dois carentes querendo mudar de vida.
Julio tomou a iniciativa e resolveu ajudar Renata. O primeiro passo foi afastá-la da amiga com quem morava e a levara para a prostituição. Alugou um apartamento para ela e comprou móveis, eletrodomésticos, louça, roupas de cama, etc. Mobiliou com o que havia do bom e do melhor. Renata escolhia e Julio pagava, a felicidade dela não tinha preço. Com todas essas despesas, ficou com as finanças seriamente abaladas e se endividou com bancos e cartões de crédito.
Renata fez a parte dela, arranjou emprego numa loja e voltou ao nome de batismo de Denise. Julio só não era completamente feliz porque o fato de ela ter sido garota de programa ainda não havia sido totalmente superado. A superação veio numa noite de amor, quando ela declarou que queria ter um filho dele. Era a motivação que faltava para Julio tomar a decisão de se separar e recomeçar a vida com Denise. O amor, finalmente, vencera o preconceito. Para celebrar aquele momento feliz, a presenteou com um carro, endividando-se um pouco mais. Denise retribuiu e naquela noite, no aconchegante e bem decorado ninho de amor, voltou a ser “Renata”.
Na manhã seguinte Julio viajou para o Rio, prometendo que voltaria com novidades. Estava disposto a começar vida nova. No sábado avisou para a mulher que queria se separar, fez as malas e foi para um hotel. Não precisou esperar pela segunda-feira para saber sua situação na empresa. No domingo foi despedido pelo telefone por um sogro furioso. Não se importou e, de certa forma, ficou aliviado. Denise era a única coisa que importava. Pensou em ligar para ela e contar a novidade, mas desistiu, queria dar a notícia pessoalmente, para curtirem juntos aquele momento feliz.
Na segunda-feira à tarde embarcou para São Paulo, com passagem só de ida. Viajou desempregado e endividado, mas feliz e livre como nunca. Era um homem apaixonado que voava para uma nova vida ao lado da mulher amada e do filho que iriam encomendar. Comprou uma caixa de bombons no aeroporto para presenteá-la no momento de dar a notícia. No táxi, a caminho do seu novo lar, sonhava com o momento de se jogar nos braços de Denise e lhe contar tudo. Ao abrir a porta do apartamento, um calafrio percorreu o seu corpo.
Não havia absolutamente nada dentro. Nada! Sala, quarto, cozinha e banheiro vazios. Denise, Renata, ou quem quer que ela fosse, tinha levado tudo que eles haviam comprado, só deixou pregos nas paredes nuas. O ninho de amor estava desfeito e com ele o sonho de uma nova vida. Sem saber o que pensar, com a mala numa mão e a caixa de bombons na outra, bateu na porta do apartamento ao lado.
-O que aconteceu? - perguntou para a vizinha, uma velha fofoqueira que sabia de tudo que se passava no prédio.
- O que aconteceu, meu filho, é que no sábado veio um caminhão de mudanças e levou tudo embora. A Denise acompanhou a mudança ao lado do rapaz que freqüentava o apartamento nos fins de semana. Eles foram embora e nem se despediram de mim - ela respondeu com um sorriso sarcástico no rosto.
Julio deu a caixa de bombons para a vizinha e se trancou no apartamento vazio. Sentou na mala, colocou a cabeça entre as pernas e chorou.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Realidade de um carnaval
Quando a escola, desce o morro e sai na avenida
Vem mostrando pra gente que a vida
É ingrata com a gente do morro
É no desfile que se vê
Os passistas vão evoluindo
Na mesma rua onde ontem varreram
Ontem esquecidos hoje atração
Na verdade é só na melodia
Quarta feira é que mostra a razão
Tendo o povo como companhia
Mas amanhã termina a fantasia
Vão solitários vassoura na mão
Varrendo a rua
Que ontem foi palco mas só por um dia
Hoje é cenário da sua agonia
Em busca do salário pra comprar o pão
Paulo Borchert